Equilibrium
04.10.2011
A era dos chicletes saudáveis!

Foi-se o tempo em que o chiclete, famoso por botar a boca em contínuo movimento, merecia a condenação absoluta dos pais, professores e dentistas. Depois que o açúcar começou a ser retirado de algumas marcas, sua condição de ameaça à arcada dentária passou a ser revista pela ciência. As novas versões desprovidas do ingrediente não só evitam alimentar a bactéria da cárie como contribuem para a proteção natural dos dentes. Nos últimos anos, já chegaram ao mercado até produtos enriquecidos com uma substância que fortifica esse escudo bucal.


Muita calma, porém, antes de mascar qualquer chiclete com a pretensão de conservar o sorriso. Os com açúcar — e eles ainda imperam nas prateleiras — continuam um perigo para a dentição se consumidos em excesso e aliados à falta da dupla escova e fio dental. Dado o aviso, podemos saborear o poder preventivo das gomas sem açúcar. “Elas estimulam a produção de saliva, líquido que tem um papel muito importante no controle da cárie”, diz o dentista Jaime Cury, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, no interior paulista.


“Quando comemos, o pH da boca fica ácido e, para compensar esse desequilíbrio, o esmalte dentário perde minerais como cálcio e fosfato para o meio bucal”, explica o dentista Marcelo Bönecker, da Universidade de São Paulo. O dente fica, então, mais suscetível a ataques bacterianos. No entanto, quando se mastiga uma goma livre de açúcar, um bom bocado de saliva vem à tona e, nesse caso, o líquido contém moléculas de cálcio e fosfato de sobra. “Os estudos mostram que, com esse fluxo elevado, a dentição deixa de ceder minerais, e isso ajuda a prevenir cáries”, diz Bönecker.


Há indícios de que o aumento do fluxo salivar incentive o processo de remineralização do esmalte dentário, erguendo uma muralha mais rígida contra os micróbios. “Quando o pH da boca está ácido, a saliva lembra a água do mar batendo nas rochas e na areia da praia. O esmalte vai se desgastando”, compara o dentista Sigmar de Mello Rode, da Universidade Estadual Paulista, em São José dos Campos. Se mascamos um chiclete após a refeição, porém, a saliva recém-fabricada e mais rica em minerais banha os dentes com doses de cálcio e fosfato. “Assim, além de promover uma autolimpeza da cavidade bucal, esse líquido exerce um papel mais reparador no esmalte”, assinala Cury.


Recentemente, desembarcaram no mercado brasileiro chicletes com um nada de açúcar e reforçados com uma substância chamada recaldent. “Trata-se de um suplemento à base de cálcio e fosfato que aumenta o poder de remineralização da goma”, explica Cury. Esse incremento à prevenção de cáries só tem um senão: como ele é feito de um derivado do leite, há suspeitas de que possa ser mal recebido por pessoas com intolerância ou alergia a laticínios.


Mas, mesmo que o produto zero açúcar não tenha esse ingrediente extra, ele desempenha uma tarefa importante no quesito faxina. “A goma pode se grudar a restos de alimentos e ajudar a eliminá-los dos dentes”, diz Bönecker. É, como você vê, um asseio bem caprichado.


Apesar de tanto benefício, temos que recordar que os chicletes não substituem a escovação nem desalojam cáries já instaladas. “Eles não devem ser consumidos todo dia, mas são úteis quando o indivíduo está sem a escova por perto”, avalia Bönecker. O ideal, portanto, é que o mascar ocorra imediatamente após o fim da refeição ou, por exemplo, depois de um doce no meio da tarde. No entanto, sempre que houver condições, vale a pena fazer a higiene com a escova, a pasta e o fio — nenhum chiclete sugar free é páreo para a ação conjunta das cerdas com o flúor.


Talvez você pergunte: quanto tempo mastigar para obter proteção? Embora não haja um consenso, uma pesquisa pontua a marca de 20 minutos. Algumas pessoas, porém, precisam apreciar a guloseima com bastante moderação, como crianças pequenas e portadores de gastrite ou disfunção temporomandibular, a DTM. “Nesse caso, não é que o chiclete cause o problema, mas ele pode agravá-lo por forçar demais a articulação da mandíbula”, diz Rode.


Vantagens além da boca
Há pouco tempo, ouviu-se um burburinho quando um estudo sugeriu que gomas sem açúcar ajudariam os mais rechonchudos a emagrecer. A hipótese era a de que elas estimulassem a saciedade. “O efeito, contudo, é quase nulo”, dispara a endocrinologista Claudia Cozer, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. “E o pior é que a mastigação ainda pode abrir o apetite.”


Se o chiclete ainda não revelou seus préstimos contra a obesidade, pelo menos surgem evidências de seu trabalho em prol do intestino. Um estudo do University College London, na Inglaterra, prova que pacientes operados de um câncer de cólon se recuperam mais rápido quando se rendem ao mascar. “Isso engana o tubo digestivo, obrigando-o a se movimentar mais”, explica o gastroenterologista Sérgio Domingues, da Universidade Federal de São Paulo. Seria um reforço daqueles se pensarmos que, após cirurgias como cesarianas, o órgão tende a ficar meio paralisado. Será que pessoas constipadas também tirariam vantagem dessa estratégia? “Em tese, sim, mas, sem outros ajustes, não refresca muita coisa”, responde Domingues. De qualquer forma, o chiclete vem mostrar que, quando conjugado a hábitos saudáveis, pode cair na boca do povo para espantar a cárie e, quem sabe, até a preguiça intestinal.


Estômago em perigo?
Gomas de mascar estimulam a produção de suco gástrico. “É como se o corpo entendesse que está vindo matéria-prima e ligasse a linha de produção”, diz o gastro Sérgio Domingues, da Universidade Federal de São Paulo. O problema é que algumas pessoas fabricam essa substância em excesso, tornando-se vítimas de queimação. Por isso, indivíduos com gastrite precisam maneirar nos chicletes, que não devem ser mascados de barriga vazia. “Quem tem refluxo também precisa tomar cuidado porque alguns aromatizantes relaxam a válvula do esôfago”, diz Domingues


Defensores dos dentes
Entenda como os chicletes sem açúcar ajudam a evitar atentados ao sorriso


Depois da refeição
Ao comermos, as bactérias se apoderam do açúcar e liberam compostos que deixam o pH da boca ácido. Os dentes passam a doar minerais ao meio bucal a fim de neutralizar o pH.


Lá vem saliva
Ao mascar um chiclete sem açúcar, aumenta-se a produção de saliva, que chega munida de minerais como cálcio e fosfato.


Escudo dental
Com esse banho de saliva, o esmalte dentário deixa de perder minerais e passa a ganhar moléculas de cálcio e fosfato, o que reforça suas defesas naturais contra as bactérias


Chicletes terapêuticos
O que os laboratórios prometem e já fazem nessa área*


Na história
O ser humano masca gomas vegetais há milhares de anos. Mas a versão industrializada do chiclete só surgiu no final do século 19 nos Estados Unidos.


Contra a impotência
A Pfizer lançou no México uma goma capaz de combater a disfunção erétil. Ainda não há previsão de chegada ao Brasil.


Antifumo
As versões com nicotina auxiliam os fumantes a largar o tabaco, uma vez que fornecem a substância viciante sem a necessidade de acender o cigarro.


Com probiótico
Cientistas japoneses desenvolveram uma opção cheia de bactérias do bem para povoar e equilibrar o intestino. Não substitui o iogurte, mas...


Por dentes brancos
Frequentes nas gôndolas, os chicletes clareadores têm moléculas que, em atrito com o dente, ajudam a branqueá-lo.


Um pirulito contra o mau hálito
Desenvolvido por uma empresa israelense, ele não tem nenhuma pitada de açúcar e combate a halitose por até quatro horas. A proeza do produto é ofertar substâncias que, em contato com a língua, removem bactérias e restos de comida. Sabe-se que a saburra lingual, um amontoado de micróbios e partículas de alimentos, é uma das principais causas de mau hálito recorrente.


FONTE: http://saude.abril.com.br//edicoes/0340/medicina/chicletes-saudaveis-637048.shtml


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